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Os paisanos

 

Por Marcelo Tognozzi*
 
 
Quando Lula convidou José Múcio Monteiro para ser ministro da Defesa, não pensou apenas no político competente, discípulo do entendimento e da conciliação, além de notável engolidor de sapos. Desejava um especialista em gente com talento de líder e, ao mesmo tempo, suave e firme.
 
Engenheiro, político e psicólogo nas horas vagas Múcio chega ao Ministério da Defesa exatos 100 anos depois da saída de João Pandiá Calógeras (1870-1934), o primeiro civil a comandar as Forças Armadas brasileiras. Naquele tempo, o ministério não era da Defesa; era da Guerra.
 
João Pandiá, assim como José Múcio, estudou engenharia e fez carreira política no Congresso, eleito deputado meia dúzia de vezes. Em 1919, o presidente Rodrigues Alves morreu e o vice Delfim Moreira assumiu para convocar eleições, conforme previa a Constituição de 1891. Dois senadores se candidataram: Rui Barbosa e Epitácio Pessoa. Rui, que disputava a presidência pela quarta vez, tomou uma surra de Epitácio, vencedor com mais do dobro dos votos desde Paris, onde, assessorado por Pandiá, chefiava a delegação brasileira na Conferência de Paz de Versalhes.
 
 
Embora com algumas semelhanças no caráter e na trajetória, as circunstâncias de cada um deles é completamente distinta. Pandiá Calógeras vem de um tempo no qual as guerras eram de 2ª geração, com cavalos, combate corpo a corpo, comunicações incipientes e inúmeras outras precariedades típicas do início do século 20.
 
José Múcio é ator político num tempo de guerras de 4ª geração, ou hibridas, nas quais os conflitos ocorrem em diversos níveis ao mesmo tempo, seja na internet, nas redes sociais, nas ruas, nos céus ou na água. É uma guerra muito mais dura, comandada pelo General Medo, o General Fake News e o General Narrativa.
 
Os atentados de 11 de setembro de 2001 são o marco desta nova geração da guerra, onde o fundamental é saber quem está lutando, por quais motivos e por qual objetivo e, então, interferir e manipular.
 
Os paisanos Pandiá Calógeras e José Múcio sempre foram conhecidos pelo bom senso e o bom trânsito. É de Calógeras a lei que garantiu à União a posse das riquezas do nosso subsolo. Numa época em que a esquerda não fazia parte da elite política do país, ele transitava bem no Congresso, nos tribunais e na diplomacia. Seu prestígio como deputado o levou ao Ministério da Agricultura e ao Ministério da Fazenda do governo do presidente Venceslau Brás (1914-1918). Múcio se entende bem tanto com Lula e como com Bolsonaro.
 
Ambos chegaram ao comando das Forças Armadas a bordo de uma negociação de paz. A de Múcio está em curso e será uma paz construída tijolo por tijolo com o fim da guerra eleitoral travada em 2022. A de Pandiá Calógeras era a negociação do espólio da 1ª Guerra Mundial em Versalhes, uma paz imposta pela humilhação dos vencidos, obrigados a pagar gordas indenizações aos vencedores, pavimentando o caminho para uma nova guerra mundial 20 anos depois.
 
Calógeras angariou o respeito da oficialidade jovem, enviada para a Alemanha entre 1906 e 1912 para modernizar o Exército brasileiro. Era uma época em que França e Alemanha disputavam o mercado internacional de defesa. Os alemães conquistaram os mercados do Chile e Argentina e, agora, estavam de olho no Brasil.
 
Estes oficiais defensores da doutrina alemã eram conhecidos como os Jovens Turcos, numa alusão ao fundador do Estado Turco general Mustafa Kermal Ataturk, cuja formação militar seguia a doutrina alemã. Entre os Jovens Turcos estavam militares que entrariam para a História, como Bertoldo Klinger e Euclides Figueiredo, este último pai do ex-presidente Figueiredo e comandante do fracassado cerco integralista ao Palácio Guanabara em 1938, cujo objetivo era matar o presidente Getúlio Vargas.
 
Pandiá Calógeras foi fundamental para a modernização das nossas Forças Armadas, não apenas em relação a equipamentos, mas principalmente na área de educação, criando a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, a Escola de Comando e Estado Maior, a de Veterinária, de Aviação e obrigando a prática de Educação Física para todas as armas. Queria Forças Armadas cada vez mais técnicas. Com a derrocada dos alemães na 1ª Guerra Mundial, trouxe a missão francesa em 1920, instituindo o Regulamento Disciplinar do Exército (RDE).
 
Num tempo em que esta era uma missão impossível, conseguiu manter as Forças Armadas relativamente longe da política. Seu chefe, o presidente Epitácio Pessoa, era uma raposa felpudíssima, criado pelo tio Barão de Lucena depois de perder os pais para a varíola aos 7 anos de idade. Não abria mão um milímetro do seu poder. Em 1922, quando da revolta dos 18 do Forte de Copacabana, ordenou a Pandiá Calógeras que sufocasse a insurreição com mão de ferro.
 
Missão dada, missão que foi cumprida com um banho de sangue nas areias de Copacabana. Saíram vivos, mas gravemente feridos, Siqueira Campos e Eduardo Gomes, brigadeiro, candidato 2 vezes à presidência e patrono do Correio Aéreo Nacional (CAN). Começava aí o tenentismo, desembocando, primeiro, na Revolução de 1924 e, depois, na de 1930.
 
Pandiá Calógeras chegou ao Ministério da Guerra aos 49 anos, quando o Brasil vivia sua adolescência republicana. José Múcio, deputado, ministro e presidente do Tribunal de Contas de União, chega ao Ministério da Defesa 100 anos depois de Calógeras, com a República na idade madura. Aos 74 anos, mais psicólogo que engenheiro, mais diplomata que político, terá de exercer o poder civil preservando o poder militar com uma nova mentalidade.
 
Como João, José tem a chance de consolidar o verdadeiro poder das Forças Armadas, que é estritamente institucional. Um poder legalmente perene, num tempo em que a defesa do Brasil não se limita apenas às fronteiras ou ameaças externas. O conceito de defesa do século 21 é muito mais amplo, englobando segurança econômica, sanitária, ambiental, segurança pessoal, comunitária e política. Não é por acaso que o Ministério da Guerra de antigamente virou da Defesa.
 
José Múcio deve usar toda sua sabedoria de homem público, curtido no sol das eleições e nas tempestades das crises, para conduzir as Forças Armadas de volta ao centro do seu poder original, permanente, como está escrito na Constituição. Um poder muito mais sólido do que o efêmero poder político, do qual faz parte o risco de mudar de mãos entre uma eleição e outra.
 
*Jornalista
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