
Estado acumula saldo de mortos, desalojados e desabrigados
Recomeçar não é fácil, principalmente quando se perde tudo. Desde a semana passada, Pernambuco tem sido atingido por fortes chuvas que resultaram em deslizamentos de barreiras, alagamentos e transtornos na mobilidade urbana.
Até esta terça-feira (5), segundo a Defesa Civil, o estado já registrou 2.282 pessoas atingidas pelo temporal, sendo 1.150 desabrigadas e 1.732 desalojadas. Ao todo, foram contabilizadas seis mortes, sendo três no Recife, duas em Olinda e uma em São Lourenço da Mata.
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Diante desse cenário, a população segue em alerta constante, mas tentando voltar à normalidade ou pelo menos se adaptar aos imprevistos causados pelos eventos climáticos que atingem Pernambuco.
Recife
Segundo dados da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac), no Recife choveu 81,38 mm nas últimas 24 horas, de acordo com dados coletados pela reportagem até às 18h30 desta terça-feira. Na última sexta-feira, três pessoas perderam a vida após uma barreira deslizar na Rua Vertente do Lério, em Dois Unidos, na Zona Norte.
Morreram no local Jaqueline Soares da Silva, de 25 anos, e o filho Riquelmy Soares da Silva, de 7 anos.
A outra filha dela, Maria Helena Soares da Silva Barbosa, de um ano, morreu após ter sido socorrida e levada ao Hospital da Restauração (HR), no Derby.

Enquanto o temporal arrastava duas casas na área, os familiares da dona de casa Maria Zilma Amâncio Figueiredo, de 37 anos, se viram perdidos.
A água invadiu um conjunto com três residências. Maria Zilma mora no local com o marido e três filhos autistas, de 1, 4 e 8 anos de idade. Ela confessa que já presenciou diversas enchentes no local, mas a da última sexta (1º) ficou marcada.

“A água entrou na minha casa e na da minha mãe, onde nós tentamos ajudar, mas de repente ouvimos os gritos de socorro. Todo mundo parou de socorrer aqui e foi ajudar a família. Meu marido conseguiu tirar toda a família lá. Aqui entrou água. Os vizinhos já desocuparam, não podemos ficar aqui por causa da barreira. A Defesa Civil veio e disse que a gente precisava ir para um abrigo ou recorrer ao auxílio de R$ 300 para alugar uma casa”, declara.
Maria relembra que perdeu todos os itens de casa durante a chuva, bem como os alimentos dos filhos, que têm seletividade alimentar. Até aqui, eles receberam doações de roupas e comidas de um comerciante de lanches que atua na área.
Porém, o local foi visitado pela equipe técnica da Defesa Civil do Recife e possui risco 4, que representa elevada possibilidade de desmoronamento.

“Vamos ter que recomeçar tudo do zero, porque, mesmo que eu tenha um salário mínimo de uma criança, não vai ajudar tanto, porque tenho que comprar medicação, fralda e lanche. Perdemos tudo”, desabafa ela, que afirma já ter contraído frieira e outras doenças da pele por conta da água de esgoto que passa na divisão entre as três residências da família.
O pai de Maria, o pedreiro Nivaldo Santos Costa, de 65 anos, mora no local há mais de 20 anos. Ele acredita que as enchentes poderiam ter sido evitadas caso o canal que passa perto da residência estivesse limpo.

“A gente queria era que a prefeitura viesse e limpasse o canal. Deveriam também retirar as árvores que ficam na barreira [que deslizou]. Infelizmente, as coisas acontecem depois que alguém morre”, desabafa.
O que diz a Emlurb?
Procurada pela reportagem e questionada sobre a limpeza citada por Nivaldo, a Empresa de Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) ainda não se pronunciou. O espaço segue aberto.
Olinda
Em Olinda, foram registradas duas mortes por soterramento, em Passarinho. Após horas de buscas, Bruna Karina, de 20 anos, e o filho dela, Pietro da Silva, de apenas seis meses, foram encontrados. Cerca de dois quilômetros depois está a subida do Cabo Gato, que fica no bairro de Peixinhos.
O local foi fortemente atingido pelo transbordamento do Rio Beberibe. Diversos moradores perderam tudo. Até às 18h30 desta terça-feira, a cidade havia registrado 57,06 mm de acumulado de chuva nas últimas 24h, segundo dados divulgados pela Apac.
A dona de casa Lindinalva Maria da Luz, de 49 anos, mora com o marido e um neto de 15 anos. Na manhã daquele dia, foi acordada em meio a gritos que anunciavam a cheia.
Composto por dois quartos, uma sala, uma cozinha, um banheiro e um pequeno quintal, o imóvel foi totalmente tomado. A única renda da família é o Bolsa Família. Eles não sabem o que fazer.
“Quando a cheia veio, minha geladeira virou com as coisas dentro. Ainda nem limpei. Se eu for abrir, vocês não vão aguentar o mal cheiro. Também perdi a minha estante [de aglomerado]. Eu tive que correr para o abrigo [aberto pela prefeitura], porque eu sou uma mulher doente. Já peguei leptospirose e não posso ficar dentro da água. Ele [o marido] que ficou olhando a casa aqui. Eu trouxe roupa do abrigo para vestir, porque as minhas estão todas molhadas”, conta.

“Só Deus sabe como eu vou recomeçar a minha vida. Tenho parentes por perto, mas não têm condições de me ajudar. Só Deus quem vai fazer isso, para que eu possa me reerguer e continuar. Eu vim em casa tomar um banho, mas vou voltar para o abrigo. Lá está uma vergonha. Eles ganham as coisas, mas não nos dão, ficam nos humilhando. Chega leite para dar as crianças e eles dão num copo. Querem nos colocar para casa com um kit de limpeza. O que nós vamos fazer com um kit de limpeza?”, questiona ela.
Mais na frente, a água chegou a quase um metro de altura na casa que Edilazilma da Silva, 44, mora com o marido e as duas filhas. Ela perdeu eletrodomésticos e móveis. Já viu a cena se repetir outras vezes, mas não tira da cabeça a movimentação intensa dos moradores querendo salvar as devidas residências.

“Eu ainda consegui guardar algumas coisas, mas muita gente lá para baixo perdeu muita coisa, como geladeira, cama e colchão. Eu via o povo subindo e descendo, chorando e assustado. Hoje mesmo estava cheia a rua, secou perto das 6h de hoje. Nós estamos recebendo doações daqui do povo mesmo. O abrigo está uma negação, todo mundo reclama”, aponta.
O abrigo que as moradoras se referem está funcionando na Erem Monsenhor Arruda, que fica na Avenida Nacional, 345. É o único ativo na cidade. Segundo a Secretaria de Direitos Humanos, o espaço recebe moradores das comunidades Cabo Gato, Condor e Beira Rio. Atualmente, a unidade atende 92 pessoas que estão desabrigadas ou desalojadas.
Ações para ajudar
Interessados em ajudar as vítimas das chuvas podem levar donativos ao Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, no Derby, e ao Quartel do Comando Geral do Corpo de Bombeiros Militar, no bairro da Soledade. Devem ser doados itens como materiais de limpeza e de higiene pessoal, além de água, roupa, brinquedos, alimentos não perecíveis, agasalhos, cobertores e colchões
Os locais disponibilizados pela Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS-PE) recebem os produtos de segunda a sexta, das 8h às 18h. Já nos fins de semana, os recebimentos acontecem das 9h às 17h.

“Os materiais podem ir para o estado inteiro. A gente entra em contato com a Defesa Civil, que levanta o que vai precisar. A partir do quantitativo de mantimentos arrecadados, nós realizamos a distribuição para as pessoas necessitadas”, explica o tenente coronel Edmilson Silva, assessor de comunicação da PMPE.
Entrega de doações
Por meio do Transforma Brasil, a Rede Muda Mundo iniciou a entrega de quatro toneladas de doações, entre alimentos, cestas básicas, kits de higiene, materiais de limpeza e itens de primeira necessidade para 27 das 28 comunidades que integram a RMM.
De acordo com o CEO da iniciativa, Fábio Silva, entre os itens arrecadados estão alimentos em geral, cestas básicas, kits de limpeza para as casas e kits de higiene básica. A ação articula organizações sociais, empresas, voluntários e parceiros em torno de uma resposta emergencial às consequências das chuvas.
O Transforma Brasil, plataforma de mobilização social da Rede Muda Mundo, atua na intermediação entre quem deseja ajudar e quem precisa de apoio, articulando a circulação de donativos nos territórios.
“Quando uma cidade enfrenta uma situação como essa, a solidariedade não pode ficar apenas na intenção. Ela precisa virar resposta concreta, chegar no território, bater na porta de quem perdeu alimento, móveis, documentos, segurança e parte da própria rotina. Essas quatro toneladas em doações são fruto de uma rede que se moveu rápido porque entendeu que, em momentos difíceis, cada hora importa”, afirmou.

“Em situações de emergência, doar é fundamental, mas organizar a chegada dessa doação é igualmente importante. Nosso trabalho é fazer essa ponte com responsabilidade: receber, articular, distribuir e garantir que o cuidado chegue às famílias e aos projetos que estão na ponta, dentro das comunidades”, finalizou.
Pessoas que desejam fazer contribuições financeiras podem doar via Pix, pela chave fundo@redemudamundo.com, ou por transferência bancária. A conta de débito é a 3190; conta: 352088-9; tipo: conta-corrente.
Donativos como alimentos, itens de higiene pessoal, de limpeza, lençóis, toalhas, cobertores, fraldas, meias e calçados fechados podem ser levados à sede da Casa Zero 81, que fica na Rua do Bom Jesus, 237, no Bairro do Recife.
Por Thalis Araújo








