
O Partido dos Trabalhadores (PT) oficializou, neste sábado (28), o apoio à candidatura de João Campos (PSB) ao Governo de Pernambuco, em decisão tomada pelo diretório estadual durante reunião no Teatro Beberibe, em Olinda.
Com a formalização do apoio do PT, fica consolidada a chapa da Frente Popular de Pernambuco, que será liderada por João Campos, que contará com Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT) como candidatos ao Senado, e Carlos Costa (Republicanos) como candidato a vice.
A resolução foi aprovada por ampla maioria interna e ocorre em sintonia com a estratégia nacional do partido de construir alianças para a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Está montado o time”, resumiu o presidente estadual do PT, Carlos Veras, ao afirmar que a definição encerra a fase de deliberação interna e inaugura o momento de disputa eleitoral.
Disputa interna, pressão externa e o risco de divisão
A consolidação da aliança, no entanto, ocorre após semanas de tensão interna e incerteza política. O PT de Pernambuco viveu um período de indefinição marcado por pressões de diferentes campos e pela possibilidade de divisão no palanque estadual.
Apesar das alianças históricas entre PT e PSB em Pernambuco, setores do partido defendiam uma flexibilidade no rumo eleitoral petista no Estado, com alguns quadros defendendo até palanque múltiplo, indicando que o presidente Lula poderia se beneficiar de ter mais de um candidato ao governo pedindo votos.
O cenário foi tensionado ainda mais durante a janela partidária, quando movimentos em Brasília passaram a influenciar diretamente o debate local. Conversas entre Raquel Lyra e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, além da relação institucional entre a governadora e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, alimentaram a avaliação, dentro do PT, de que o desfecho da aliança não estava garantido.
Entre os setores divergentes do partido, estão os deputados estaduais João Paulo, Doriel Barros e Rosa Amorim, que integram a base do governo na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e defendem uma aliança com a governadora Raquel Lyra, para garantir a chegada de investimentos do governo federal no Estado.
Nos bastidores, a leitura era de que Pernambuco poderia se tornar um dos poucos estados com disputa aberta dentro do campo governista, caso o partido não conseguisse unificar sua posição.
A votação deste sábado, no entanto, funcionou como um ponto de inflexão. A ampla maioria (86%) obtida pela tese de apoio a João Campos encerra formalmente a disputa interna — mas não elimina completamente as divergências.
Unidade construída e desafios de coesão
Apesar da ampla vitória da corrente majoritária, lideranças do PT admitem que o desafio agora será transformar a decisão política em unidade total durante a campanha.
Dentro do partido, existem três comportamentos distintos: os que apoiam integralmente a aliança com o prefeito João Campos, os que devem atuar de forma crítica e os que tendem a manter distância do palanque, especialmente em bases locais onde há alinhamento com a governadora.
O senador Humberto Costa reconheceu esse cenário e indicou que a recomposição será um processo contínuo.
“O PT sempre tem a característica de, quando toma uma decisão, marchar junto. Mas isso exige diálogo, exige convencimento. Nós vamos trabalhar para isso”, afirmou.
A senadora Teresa Leitão reforçou que a divergência não é um elemento fora do padrão partidário, mas parte do funcionamento interno da legenda.
“Houve ajustes, como sempre há. O partido é nacional, tem estratégia, e isso foi sendo construído”, disse.
Já João Campos buscou transformar o resultado em capital político, ao enfatizar que a decisão expressa não apenas um acordo partidário, mas a formação de um bloco político com identidade definida.
“É a unidade do campo democrático e popular”, afirmou.
Chapa montada e engenharia eleitoral para o Senado
Com a aliança formalizada, inicia-se a estratégia para garantir que os dois senadores da chapa sejam eleitos. A dobradinha entre Humberto Costa e Marília Arraes foi apresentada como uma construção política e eleitoral pensada para maximizar resultados, evitando dispersão de votos dentro do próprio campo.
“São dois nomes com densidade eleitoral, com história, que defendem o presidente Lula. Isso fortalece a chapa como um todo”, afirmou Humberto.
Marília Arraes explicitou de forma ainda mais direta a lógica da campanha, ao defender o voto casado como orientação ao eleitor.
“Essa é uma eleição de dois votos. Quem vota em Marília vota em Humberto, quem vota em Humberto vota em Marília. É uma construção conjunta, que fortalece João e fortalece Lula”, disse.
No discurso político, Marília também buscou simbolizar a superação de conflitos dentro do campo progressista em Pernambuco.
“Quem apostou na arenga e na briga, perdeu a aposta com todas as fichas que colocou lá. Aqui a gente construiu e constrói uma unidade. Nós não vamos soltar a mão um do outro”, afirmou.
Pernambuco como peça do tabuleiro nacional
O evento deste sábado evidenciou o papel das eleições em Pernambuco para o cenário nacional, com impacto direto na disputa presidencial e na correlação de forças no Congresso. João Campos, que também é presidente nacional do PSB, foi direto ao reforçar a importância de construir palanques fortes para Lula em todo o país.
“A gente precisa construir os palanques mais fortes possíveis no Brasil para garantir a reeleição do presidente Lula”, afirmou.
Além da disputa pelo governo, João destacou o papel estratégico do Senado, apontando que o resultado em Pernambuco pode influenciar diretamente a governabilidade federal.
“Todo mundo sabe o quanto é importante construir uma maioria democrática no Senado. Isso não é detalhe. Isso é central para o futuro do país”, declarou.
Lideranças do campo aliado ao PT adotaram um discurso direto de enfrentamento ao bolsonarismo e de demarcação de campo ideológico.
A ministra Luciana Santos afirmou que o Estado “está acertando no rumo” ao consolidar a frente política, enquanto o ministro Silvio Costa Filho destacou que o grupo atuará de forma unificada para garantir a vitória do projeto nas urnas.
Já Teresa Leitão ampliou o tom ao inserir a disputa em um contexto mais amplo, citando riscos associados à atuação da extrema-direita e à disseminação de desinformação.
“Essa eleição exige não só pragmatismo, mas clareza de projeto. Não basta buscar voto, é preciso saber o que se defende”, afirmou.
Da articulação à campanha
Com a fase de definição encerrada, o foco agora se volta para a mobilização eleitoral. João Campos indicou que a estratégia será baseada em presença territorial e construção política direta com o eleitorado.
Agora pré-candidato ao Governo de Pernambuco, João deixará a Prefeitura do Recife no próximo dia 2 de abril, para se dedicar às eleições estaduais.
“Vamos rodar Pernambuco, fazer o debate olho no olho, gastar sola de sapato, ouvir as pessoas e construir essa unidade com o povo”, disse.
Por Pedro Beija


