
Dados da Secretaria Estadual de Saúde ainda são parciais e podem crescer. Doença permanece endêmica no Brasil
Pernambuco registrou, em 2025, 6.045 casos de tuberculose, número próximo ao total contabilizado em todo o ano anterior, quando foram confirmados 6.152 diagnósticos da doença. Apesar da semelhança, os dados mais recentes ainda são parciais e podem crescer, já que as notificações seguem sendo atualizadas no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), base oficial usada em todo o país.
A tuberculose continua como um problema de saúde pública, mesmo diante de avanços no diagnóstico e tratamento. “A tuberculose sempre foi uma doença endêmica no nosso país. Existem períodos com maior número de casos, geralmente associados a condições climáticas mais secas ou úmidas, mas ela nunca deixa de existir. Por ser endêmica, está sempre presente”, explica a pneumologista e endoscopista respiratória Bruna Rocha.
Segundo a médica, o aumento de casos também pode estar relacionado a fatores recentes, como os impactos da pandemia de Covid-19 na saúde da população. “Pacientes com doenças pulmonares, como Covid-19, asma ou doença pulmonar obstrutiva crônica, muitas vezes associada ao fumo, têm mais facilidade de desenvolver outras infecções pulmonares, incluindo a tuberculose. Qualquer comprometimento do pulmão aumenta esse risco”, explica Bruna Rocha.
Embora a doença seja frequentemente associada à tosse com sangue, esse é um sinal mais avançado.
Antes disso, os sintomas podem ser mais discretos. “A tuberculose chama atenção quando aparece tosse com sangue, mas esse já é um sinal mais avançado. Antes disso, existem sintomas importantes, como tosse por mais de duas semanas, seca ou com catarro; perda de peso não intencional, por exemplo, perder cerca de 10% do peso em um mês sem dieta ou exercício; além de fraqueza (astenia) e febre baixa, geralmente no fim da tarde ou início da noite. Esses sinais são mais sutis, mas já indicam a necessidade de investigação”, detalha a especialista.
Nos casos mais graves, a doença pode evoluir para sangramentos. “A tuberculose provoca necrose no pulmão, ou seja, destruição do tecido. Quando essa necrose atinge vasos sanguíneos, ocorre o sangramento, que é a hemoptise”, diz Bruna. O diagnóstico, segundo a médica, não depende apenas da presença de escarro. “Nem todo paciente consegue produzir escarro. Nesses casos, o diagnóstico pode ser feito por meio da endoscopia respiratória, um procedimento semelhante à endoscopia digestiva, mas voltado para o pulmão, que permite coletar secreções diretamente das vias respiratórias”, pontua a médica.
A doença atinge com mais intensidade pessoas em situação de maior vulnerabilidade clínica e social. “Pessoas nos extremos de idade, como idosos e crianças, têm maior risco. Também pacientes com diabetes, gestantes, pessoas em tratamento para câncer ou doenças autoimunes, além de quem vive com HIV ou tem imunidade baixa. Fatores sociais também influenciam: moradias com muitas pessoas e condições precárias facilitam a transmissão”, complementa a pneumologista.
Apesar de ter cura e tratamento gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a tuberculose ainda enfrenta o abandono do tratamento. “É um tratamento longo, geralmente de seis meses, e pode ser difícil. Os medicamentos devem ser tomados em jejum, a quantidade varia conforme o peso e podem causar efeitos colaterais, como náuseas, dor abdominal e mal-estar. Isso desestimula alguns pacientes”, afirma Bruna.
Ela também destaca barreiras sociais. “Além disso, há dificuldades sociais, especialmente entre pessoas em situação de rua, embora o acesso à medicação tenha melhorado bastante nos últimos anos”, complementa. Para reduzir esse cenário, a médica aponta caminhos. “Educação é fundamental. As campanhas de informação ajudam muito. Também é importante facilitar o acesso ao tratamento. Hoje, mesmo pessoas sem moradia conseguem retirar a medicação com encaminhamento adequado. Políticas públicas e o fortalecimento da atenção básica são essenciais”, afirma a pneumologista.
Ela ainda destaca que o monitoramento dos pacientes é uma etapa decisiva para o sucesso do tratamento. “O paciente precisa ser avaliado regularmente, incluindo o peso, que é um indicador importante de melhora. Além disso, é necessário repetir exames de escarro para verificar a redução do bacilo e realizar exames de imagem, como raio-X ou tomografia, para acompanhar a evolução do pulmão. Se não houver melhora, é preciso investigar outras possibilidades.”
Em nível nacional, o Brasil tem avançado no combate à tuberculose. O país passou a detectar 89% dos casos estimados, aproximando-se da meta de 90% estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Esse avanço está ligado, principalmente, à ampliação do diagnóstico, com aumento de 76,3% na realização de testes moleculares. Após a queda na detecção durante a pandemia, causada pela interrupção de serviços de saúde, o país recuperou a capacidade diagnóstica a partir de 2023, mantendo os resultados em 2024 e 2025.
Além disso, a vacina BCG, aplicada na infância, segue como uma das principais formas de prevenção das formas graves da doença, com cobertura de 98% no país em 2025.
Por Adelmo Lucena


