Para a criança que gosta de ler, para a que precisa brincar, para a avó que trabalha e o dinheiro não dá, qual seria o melhor presente?

Crianças carentes de todo o Brasil escrevem para o papai Noel, no Natal – Foto: Marcelo Carmargo/ABr
A campanha Papai Noel dos Correios emociona os brasileiros, todos os anos. Os pedidos giram em torno de desejos comuns, do lazer que não se tem, e dizem muito da brutal realidade cotidiana distribuída pela desigualdade. Antes de existir a campanha, as cartas de Natal sensibilizavam os carteiros, endereçadas à data festiva pela inocência e pela ilusão se serem atendidas. Os Correios abraçaram o objetivo de estimular a escrita de cartas pelas crianças, e “o desenvolvimento de habilidades cognitivas e emocionais”. Assim, a premissa da iniciativa, há mais de três décadas, sugere que escrever uma carta vai muito além do sonho de um presente.
Com a figura estereotipada do bom velhinho de barba branca e óculos em evidência, o Natal é tempo de cartas – e avós. Na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, foi por sugestão de sua avó que o menino Maycon, de 9 anos, redigiu cartas com pedidos e jogou nas portas dos moradores da vizinhança. Em um dos textos, segundo reportagem do Jornal Cidade, o garoto revela que apenas a avó trabalha para sustentar a família. Uma tia cuida da criança e o pai está desempregado. “Neste Natal queria muito ganhar um videogame, pode ser dos mais antigos e pode ser do mais barato que vou ficar muito feliz”, diz outro trecho.
Bolas, bonecas e carrinhos de controle remoto se misturam a cestas básicas e até óculos, no meio das palavras que saltam do papel e ecoam na estação natalina. Em desejo que virou notícia este ano e rodou o país nas redes sociais, Dhavi Pietro, de 11 anos, de Campina Grande, na Paraíba, queria de Natal uma consulta no oculista, e óculos novos. Na primeira versão da carta, o pedido seria para material escolar. A dificuldade de ler com lentes vencidas há dois anos fez com que o garoto mudasse de ideia. “Gosto muito de estudar, por isso queria uma consulta e um óculos. Isso vai me ajudar muito em casa, na escola”, explicou na carta. Com a repercussão nas redes, o menino e sua mãe receberam novos óculos, assim como outras 45 crianças do Instituto Eu Sou de Jesus, entidade que realizou a campanha de solidariedade (@institutoeusoudejesus no Instagram).
E se fosse Natal sempre, como pensou Carlos Drummond de Andrade? “Então nos amaremos e nos desejaremos felicidades ininterruptamente, de manhã à noite, de uma rua a outra, de continente a continente”, imaginou o cronista e poeta de Itabira. Para a criança que gosta de ler, para a que precisa brincar, para a avó que trabalha e o dinheiro não dá, para as organizações que amparam cidadãos carentes, para a gente que escreve e propaga histórias de esperança à luz de dezembro, e também para o jovem revolucionário e subversivo, que contam ter sido assassinado na cruz, aos 33 anos, cuja inspiração nos legou o livro mais lido no mundo – seria o melhor presente.
Por: Fábio Lucas-JC











