
Sobreviventes relatam as consequências físicas e na rotina deixadas por ataques registrados no litoral pernambucano entre 1993 e 2023
Em pouco mais de três décadas, Pernambuco registrou 84 incidentes com tubarões, segundo o Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões (Cemit). Os números voltaram a aumentar após dois ataques ocorridos em menos de 24 horas no litoral do Grande Recife envolvendo um menino de 11 anos mordido em Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e uma jovem de 19 anos atacada em Boa Viagem, no Recife.
Além dos números, existem histórias que atravessam décadas, com vítimas de diferentes gerações que carregam marcas físicas e na memória. Algumas transformaram a experiência em ativismo, enquanto outras seguem enfrentando desafios após os incidentes.
Charles Veras – Piedade
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Charles Veras foi mordido por um tubarão em Piedade (Foto: Karol Rodrigues/DP Foto)
Em janeiro de 1993, quando a série histórica dos incidentes ainda estava começando, o então estudante Charles Veras tinha 14 anos e passava uma tarde de sábado surfando na praia de Piedade.
Era 22 de janeiro e ele estava acompanhado de um primo nas proximidades do Edifício Britânia quando foi atacado por um tubarão-cabeça-chata. A mordida arrancou parte da perna esquerda. Mais de três décadas depois, aos 48 anos e atuando como representante comercial, Charles ainda recorda cada detalhe daquele fim de tarde.
“O tubarão mordeu e me puxou muito forte para debaixo d’água. Eu segurei no bodyboard e afundei com ele, que me ajudou a voltar para a superfície. Meu primo entrou na água para me tirar e gritou por ajuda. Um barraqueiro ajudou, fez um torniquete, e me socorreram para o Hospital da Aeronáutica”, conta.
A sobrevivência foi apenas o início de um longo processo. Charles passou por cirurgias, enxertos, procedimentos de reconstrução e adaptação. Com a perda de sensibilidade na perna, enfrentou novas complicações ao longo dos anos.
Ele relata que precisou reaprender cuidados básicos relacionados ao próprio corpo e convive até hoje com limitações decorrentes do ataque. “Houve vários momentos de adaptação. Eu ainda tenho algumas sequelas, mais relacionadas ao movimento e à sensibilidade, mas o cuidado é maior agora.”
Ao acompanhar os novos casos registrados no litoral pernambucano, Charles afirma que ainda vê falhas na prevenção. “Se a resposta do Estado tivesse sido mais enérgica, realmente com proibições até para tomar banho, ou com a implementação de redes, boias e qualquer outra medida que inibisse a presença do tubarão, eu acho que a gente teria menos vítimas”, afirma.
















