Aluno autista é encontrado desorientado após fugir de escola por bullying em Garanhuns

Escola Municipal José Ferreira Sobrinho, no distrito de São Pedro (Foto: Reprodução/Google Street view)

Estudante de 14 anos foi encontrado horas depois com as roupas rasgadas. Secretaria de Educação confirmou negligência de profissionais da unidade

Um adolescente de 14 anos, diagnosticado com transtorno do espectro autista (TEA) e epilepsia, foi encontrado desorientado após fugir da Escola Municipal José Ferreira Sobrinho, em Garanhuns, no Agreste do estado, após sofrer bullying. O desaparecimento ocorreu na tarde da última quarta-feira (27) e mobilizou familiares e moradores da comunidade nas buscas.

Segundo a mãe do estudante, Tatiana Nunes, o episódio teria sido desencadeado por uma situação de constrangimento envolvendo colegas da escola. Ela relata que o filho já havia passado por um desentendimento anteriormente e que, no dia do desaparecimento, voltou a ser alvo de ofensas.

“Dessa vez, houve um desentendimento horas antes. Quando aconteceu essa ocasião com as crianças, fizeram uma rodinha e ele ficou no meio. Na hora, com toda a pressão que fizeram sobre ele, e por ele ser autista, acabou tendo uma crise pós-traumática. Entrou em surto e pulou o muro da escola para fugir”, afirmou.

Ainda de acordo com a mãe, após deixar a unidade de ensino, o adolescente ficou sem orientação e caminhou sem rumo pela região. “Ele perdeu a noção das coisas, não tinha consciência do que estava acontecendo e saiu sem rumo. Depois, fomos encontrá-lo já por volta das 19h”, relatou.

Tatiana contou que só percebeu o desaparecimento do filho no fim da tarde, quando a rotina da família começou a se desencontrar. “Eu só percebi que ele desapareceu quando meu marido foi buscar o meu outro filho mais novo. Foi nesse momento que vimos que ele não estava nem na minha casa nem na casa da minha sogra”, disse.

A família iniciou buscas nas casas de amigos e pelas ruas do distrito, mas sem sucesso. Foi então que a mãe decidiu recorrer às redes comunitárias da região.

“Lembrei de um grupo de notícias que tem mais de 500 pessoas. Eu disse: ‘Vou colocar no grupo, porque alguém da população pode ter visto eles em algum lugar ou até ajudar nas buscas’. E foi isso que aconteceu. As pessoas começaram a procurar junto com a gente. A busca se espalhou pela cidade, com várias pessoas ajudando”, contou.

Segundo ela, o adolescente foi localizado por crianças que brincavam na região. O jovem estava deitado no chão, abalado emocionalmente e precisou ser levado para atendimento médico.

Atendimento médico

Após ser encontrado, o estudante foi encaminhado ao Hospital Regional Dom Moura. De acordo com a mãe, ele chegou à unidade sem conseguir falar.

“Levamos para o hospital e lá a doutora foi muito atenciosa. Conversou direitinho com ele e, aos poucos, ele foi voltando ao normal, porque quando chegou ainda não conseguia falar. Aí eu fui conversando com ele também”, afirmou.

Segundo Tatiana, a médica atribuiu o quadro a uma síncope pós-traumática, desencadeada pelo estresse vivido pelo adolescente. Após avaliação clínica, o estudante recebeu medicação e foi liberado para voltar para casa, mas deverá continuar sendo acompanhado por profissionais de saúde.

“Ela passou a medicação e orientou que eu aguardasse a recuperação dele, porque ele estava ficando bem, tudo dentro do esperado. Depois, examinou ele e recomendou que procurássemos o posto de saúde para que ele tivesse acompanhamento, porque existe a possibilidade de alguma sequela em decorrência desse episódio”, disse a mãe.

Segundo ela, os médicos alertaram para possíveis alterações comportamentais decorrentes do trauma. “Até agora, graças a Deus, eu percebo que ele continua normal. Ontem ele teve febre, mas acredito que ainda seja uma reação psicológica a tudo o que aconteceu”, acrescentou.

Secretaria confirma negligência

Em nota, a Secretaria Municipal de Educação de Garanhuns informou que abriu apuração imediatamente após tomar conhecimento do caso e confirmou a existência de negligência por parte de profissionais responsáveis pelo acompanhamento do estudante.

Segundo a pasta, após a análise dos relatos e das informações coletadas, foram aplicadas advertências e determinada a rescisão contratual nos casos cabíveis.

A secretaria também informou que a escola adotará medidas de acolhimento e acompanhamento do estudante por meio de uma equipe multidisciplinar, envolvendo o serviço de Psicologia Escolar, o Atendimento Educacional Especializado (AEE) e a gestão da unidade de ensino. Além disso, as famílias dos alunos serão convidadas para um momento de diálogo e alinhamento com a comunidade escolar.

Por Adelmo Lucena

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