
Por Pedro Beija
Encerradas as convenções partidárias, Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) chegam oficialmente à campanha para as eleições em Pernambuco sustentados por estruturas políticas distintas. A governadora, que disputa a reeleição, construiu uma ampla rede de apoios municipais ao longo do mandato, enquanto o ex-prefeito do Recife reuniu uma frente partidária maior e terá mais espaço para apresentar sua candidatura no horário eleitoral gratuito.
O desenho final das alianças ajuda a mostrar como os dois principais candidatos ao Governo tentam compensar vantagens do adversário. Raquel ampliou sua presença no interior e recebe apoio até de partidos que não integram formalmente sua coligação. João, por sua vez, concentrou partidos com peso nacional em seu palanque, conta com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chega à campanha com vantagem na estrutura de comunicação partidária.
Levantamento feito pelo Jornal do Commercio mostra que Raquel conta atualmente com o apoio de 145 dos 184 prefeitos pernambucanos, enquanto 39 estão no campo de João. A diferença representa um dos principais ativos da governadora para a campanha, sobretudo pela capacidade de mobilização das lideranças municipais e de associação das entregas do Governo do Estado às administrações locais.
A relação se inverte quando o critério é o horário eleitoral gratuito. Segundo cálculo do JC, baseado na metodologia prevista na Lei das Eleições, João terá aproximadamente 4 minutos e 32 segundos em cada bloco de rádio e televisão, contra 3 minutos e 51 segundos de Raquel.
Raquel com apoio de 79% dos prefeitos pernambucanos
A vantagem de Raquel entre os prefeitos foi construída especialmente ao longo dos últimos dois anos. Após as eleições municipais de 2024, a governadora passou a ampliar a interlocução com gestores de diferentes campos políticos e chega à campanha apoiada por 79% dos prefeitos do Estado, enquanto seu principal adversário, João Campos, tem 21% dos gestores.

Para a cientista política Priscila Lapa, a presença dessas lideranças continua sendo uma variável relevante em uma eleição estadual por permitir a formação do que chama de “voto de estrutura”, mesmo em um cenário político cada vez mais marcado por discussões ideológicas e pela comunicação nas redes sociais.
“A gente está muito acostumado com as discussões mais ideológicas nos últimos tempos no Brasil, mas precisa ponderar que ainda existe muito fortemente esse voto atrelado a uma estrutura amparada pelos próprios atores políticos”, afirma.
Na prática, de acordo com Priscila, o prefeito funciona como uma ponte entre as entregas realizadas no município e a candidatura estadual. Obras, convênios e investimentos podem ser apresentados pelas lideranças locais como resultado da relação mantida com o Governo do Estado.
“Você tem prefeitos lá nos municípios dizendo que uma obra está acontecendo aqui na cidade por causa da governadora ou que uma estrada foi reconstruída por causa da governadora”, exemplifica Priscila.
A cientista política relaciona, inclusive, parte do crescimento de Raquel nas pesquisas ao fortalecimento dessa base municipal após 2024. João liderava com vantagem os levantamentos realizados durante 2025, quando ainda comandava a Prefeitura do Recife, mas viu a diferença cair até ser ultrapassado pela governadora a partir das pesquisas divulgadas em abril deste ano.
O socialista, contudo, também se movimentou para construir uma estrutura fora da capital antes de deixar a Prefeitura. Durante as eleições de 2024, percorreu o Estado, apoiou candidatos em diferentes municípios e se aproximou de grupos de oposição a prefeitos que hoje estão no campo de Raquel.
Em alguns casos, seus aliados venceram. Em outros, permaneceram como forças de oposição com votação relevante. Para Priscila, esse movimento permitiu que João chegasse à eleição estadual com bases espalhadas pelo território pernambucano, mesmo em número inferior ao da governadora.
“Ele emprestou a sua popularidade para algumas lideranças locais, em alguns casos com êxito, outros não, mas ele também tem uma base”, avalia. Para a cientista política, no entanto, o chamado voto de estrutura ainda representa uma vantagem importante para Raquel.
João leva vantagem no horário eleitoral
Se a força municipal favorece Raquel, a estrutura partidária nacional garante a João mais espaço no horário eleitoral gratuito.
O candidato do PSB deverá contar com aproximadamente 4 minutos e 32 segundos em cada bloco destinado à disputa pelo Governo. Raquel terá cerca de 3 minutos e 51 segundos. A diferença entre os dois será de aproximadamente 41 segundos.
O terceiro candidato com participação nos blocos será Ivan Moraes (PSOL), da Federação PSOL-Rede, com cerca de 36 segundos. Os outros cinco concorrentes ao Governo não terão tempo no guia eleitoral.
A diferença entre João e Raquel decorre do tamanho das bancadas nacionais dos partidos e federações que integram suas coligações. Para fins do cálculo previsto na Lei das Eleições, a Frente Popular reúne legendas que somaram 206 deputados federais eleitos em 2022, enquanto os partidos da Pernambuco de Coração totalizam 173.
A vantagem no relógio, entretanto, não representa automaticamente vantagem nas urnas.
Priscila observa que o rádio e a televisão hoje convivem com um ecossistema de comunicação muito mais amplo. O conteúdo produzido para o guia pode ser recortado, replicado nas redes sociais e pautar discussões que continuam no ambiente digital mesmo depois do fim de cada programa.
“Tem essa interalimentação desses diversos canais e a gente não pode subestimar o peso que uma comunicação bem estruturada, no âmbito do programa eleitoral, pode ter”, afirma.
Segundo ela, o guia também permite às campanhas organizar uma narrativa de maneira mais estruturada, seja para apresentar propostas, explorar pontos fortes ou atacar fragilidades do adversário. Uma fala exibida na televisão pode, posteriormente, viralizar nas redes e se tornar um dos assuntos da campanha.
A diferença, portanto, dependerá também de como cada candidatura utilizará o espaço disponível.
“Não é só a quantidade de tempo. A gente já viu candidatos em outras eleições que tinham um tempo maior de campanha, mas não conseguiam se comunicar bem”, ressalta Priscila.
No cenário pernambucano, ela considera a comunicação um ativo dos dois candidatos. João utiliza esse recurso desde a construção de sua projeção política, enquanto Raquel ampliou o investimento na divulgação das ações de governo ao longo do mandato.
Como ficaram os palanques
A maior fatia de João no horário eleitoral é resultado também da composição mais ampla da Frente Popular de Pernambuco. A coligação reúne PSB, Republicanos, Federação Brasil da Esperança — PT, PV e PCdoB —, PDT, MDB, Federação Renovação Solidária — Solidariedade e PRD —, DC e Mobiliza.
A chapa majoritária foi definida com antecedência em relação ao campo adversário. João tem Carlos Costa (Republicanos) como candidato a vice-governador e Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT) para as duas vagas ao Senado.
A coligação Pernambuco de Coração, liderada por Raquel, é formada por PSD, Federação União Progressista — PP e União Brasil —, Podemos e Avante. Priscila Krause (PSD) permanece na vice, enquanto Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD) disputam o Senado.
A formação da chapa governista se estendeu até os últimos dias antes da convenção. O principal impasse ocorreu dentro da União Progressista, onde Eduardo da Fonte e Miguel Coelho (União Brasil) disputaram a indicação ao Senado. A vaga ficou com o presidente estadual do PP, enquanto Miguel decidiu concorrer à Câmara dos Deputados.
Para Priscila Lapa, apesar das negociações de última hora, a configuração geral dos dois principais palanques não trouxe grandes surpresas em relação ao que vinha sendo construído durante a pré-campanha.
No campo de Raquel, porém, a estrutura eleitoral ultrapassa os limites formais da coligação.
O PL declarou neutralidade na disputa pelo Governo de Pernambuco e não integra a Pernambuco de Coração. A legenda também mantém posição de independência na Assembleia Legislativa. Individualmente, no entanto, integrantes do partido estão no campo da governadora, entre eles Mendonça Filho, candidato da sigla ao Senado, que declarou apoio à reeleição de Raquel.
Já o Novo, mesmo ficando de fora da coligação, declarou apoio a Raquel e lançou o advogado Carlos Sant’Anna ao Senado. O partido também apoia Mendonça para a outra vaga.
Outra situação particular envolve a Federação PSDB/Cidadania. Após uma crise entre as duas legendas sobre o posicionamento na disputa estadual, a federação decidiu não integrar nenhum dos palanques. Separadamente, porém, o PSDB reforçou o apoio a Raquel, enquanto o Cidadania está com João.
O resultado é que a estrutura de apoio à governadora é maior do que sua coligação oficial, mas também menos uniforme quando a eleição para outros cargos entra na equação.
Fora dos dois principais campos, a Federação PSOL-Rede lançou Ivan Moraes ao Governo. Também disputam o cargo Professora Camila (UP), Guilherme Fonseca (PSTU), Renan (Missão), Professor Jeremias do Banco (Democrata) e Victor Assis (PCO).
Bancada federal dividida; Na Alepe, eleição e relação com o Governo se cruzam
A diferença expressiva entre os prefeitos não se repete entre os deputados federais de Pernambuco. Dos 25 parlamentares da bancada pernambucana na Câmara, levantamento do JC identificou 12 no campo político de João Campos e 11 ligados a Raquel Lyra. Os outros dois deputados são do PL, que adotou posição de neutralidade na eleição para o Governo. Politicamente, no entanto, a legenda faz oposição a João Campos.
O quadro deixa a bancada pernambucana praticamente dividida entre os dois principais campos, cenário diferente da vantagem municipal construída pela governadora.
Na Assembleia Legislativa, a divisão eleitoral também não reproduz integralmente o comportamento das bancadas durante o mandato. Partidos que hoje estão em campos opostos na disputa pelo Governo votaram juntos em diferentes matérias, em meio a uma relação entre Executivo e Legislativo marcada também por sucessivos embates institucionais.
As tensões ganharam força ao longo de 2025 e envolveram a tramitação de projetos de interesse do Governo, como pedidos de empréstimos, além da própria Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026, que passou por meses de impasse antes de ser aprovada neste ano.
O presidente da Alepe, Álvaro Porto (MDB), tornou-se um dos principais opositores da governadora dentro da Casa e está entre os apoiadores de João Campos, apesar da posição de independente da bancada do MDB na Alepe.
Também na Alepe, a bancada da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, votou com o Governo ao longo da legislatura, evidenciando a diferença entre o mapa parlamentar e o eleitoral.
A relação entre Governo e Assembleia passou ainda pela discussão sobre emendas parlamentares, demandas destinadas às bases municipais e disputas em torno da tramitação de projetos enviados pelo Executivo.
O cenário mostra que a correlação de forças observada na Alepe durante o mandato não pode ser transposta diretamente para o mapa eleitoral de 2026. Parlamentares que estiveram do mesmo lado em votações agora ocupam palanques adversários, enquanto aliados eleitorais também mantiveram posições distintas na relação cotidiana com o Governo.
João aposta em Lula; Raquel preserva parceria com governo federal
Outra diferença entre os dois palanques está na relação com o presidente Lula.
Na Frente Popular, o apoio do petista é um dos principais elementos de unidade política. João tem defendido a continuidade de uma parceria entre Pernambuco e o Governo Federal e, ao mesmo tempo, intensificado o contraponto direto à administração de Raquel.
A presença do PT na chapa também dá à campanha um discurso nacional. Humberto busca a reeleição ao Senado, enquanto Marília disputa a segunda vaga. Os dois têm associado suas candidaturas à necessidade de ampliar a base de Lula no Congresso.
Raquel não tem o apoio eleitoral do presidente, mas também evita construir uma campanha de oposição ao Governo Federal.
Na convenção que oficializou sua candidatura, a governadora destacou a importância da parceria com a União para investimentos realizados durante seu mandato e agradeceu o apoio recebido de integrantes do governo Lula.
A estratégia permite que Raquel dispute votos de eleitores do presidente sem precisar integrar seu palanque, enquanto João tenta transformar a relação política com Lula em um diferencial eleitoral.
Essa configuração também é favorecida por uma característica apontada por Priscila Lapa: a ausência de um palanque próprio e estruturado da direita na disputa pelo Governo de Pernambuco.
O PL, principal força partidária ligada ao bolsonarismo no País, optou pela neutralidade na eleição para o Governo, preservando sua autonomia e concentrando seu projeto majoritário na eleição de Mendonça ao Senado. O candidato, por sua vez, apoia Raquel.
“Apesar da gente ter a candidatura de Mendonça firmando um pouco essa perspectiva do campo mais à direita, chama a atenção a ausência de um palanque estruturado da direita em Pernambuco”, analisa Priscila.
Para a cientista política, o desenho chama atenção porque Pernambuco mantém um eleitorado fortemente identificado com Lula, mas também possui um contingente significativo de eleitores conservadores e bolsonaristas. Ao contrário do que ocorre em outros estados do Nordeste, essa polarização nacional não terá uma reprodução direta na disputa estadual pelo Executivo.
Senado mantém apoios em movimento
Se as convenções praticamente encerraram a montagem dos dois principais palanques para o Governo, a disputa pelo Senado continua reorganizando alianças nos municípios.
Raquel tem Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha como os dois candidatos de sua chapa e declarou que fará campanha por ambos. Mendonça Filho também apoia a reeleição da governadora, mas Raquel afirmou que não fará campanha pelo candidato do PL ao Senado.
O Podemos exemplifica como essa divisão pode funcionar na prática. O partido integra formalmente a Pernambuco de Coração, possui 11 prefeitos no Estado e apoiará Raquel para governadora. Para o Senado, porém, a orientação do partido é pedir votos em Eduardo da Fonte e Mendonça.
O Novo apoia Raquel, tem Carlos Sant’Anna como candidato a senador e, ao mesmo tempo, também pede a segunda opção de voto para Mendonça.
A própria definição da candidatura de Eduardo da Fonte mexeu na distribuição das bases municipais. Miguel Coelho deixou a corrida ao Senado após perder a disputa interna da União Progressista e será candidato a deputado federal. O senador Fernando Dueire (PSD) também ficou fora da chapa majoritária.
As duas saídas deixaram um conjunto de prefeitos sem os candidatos aos quais estavam anteriormente vinculados.
Nos bastidores, fontes ouvidas pelo Jornal do Commercio afirmam que há uma movimentação de aliados da governadora para levar o maior número possível desses gestores para as candidaturas de Eduardo da Fonte e Túlio Gadêlha.
A migração, contudo, não ocorre de maneira automática. Há prefeitos que apoiam Raquel para o Governo, mas preferem Humberto Costa para uma das vagas ao Senado. Outros passaram a ser disputados por Mendonça e demonstram preferência pelo parlamentar depois de sua entrada na corrida.
A situação de Dueire é particularmente relevante. Ao longo do mandato, o senador construiu uma rede própria de prefeitos, fortalecida pela destinação de emendas e recursos aos municípios.
Priscila Lapa avalia que esse grupo não deve necessariamente acompanhar de maneira uniforme as candidaturas de Eduardo e Túlio.
“É possível que essa base não migre uniformemente para os candidatos da governadora”, afirma.
Na avaliação da cientista política, a eleição para senador permite maior flexibilidade nas alianças porque obedece a uma lógica diferente daquela do voto para governador ou presidente.
“Esse voto para o Senado é um voto majoritário, mas de representação. Ele não é o voto majoritário executivo. Então, ele tem uma lógica própria”, explica.
Isso permite que um prefeito esteja no palanque de Raquel para o Governo e vote em Humberto ou Mendonça para o Senado sem que, necessariamente, o movimento represente um rompimento na disputa estadual.
A chegada de Mendonça também acrescentou um componente novo a uma disputa em que Marília Arraes lidera os cenários testados por Quaest e Datafolha, seguida por Humberto Costa. Mesmo antes de lançar sua pré-candidatura, Mendonça já aparecia na terceira colocação, enquanto Eduardo vinha em seguida, na quarta posição.
Na contramão dos adversários, o desempenho de Marília ocorre mesmo sem uma rede de prefeitos comparável à de outros postulantes à Casa Alta.
Estruturas diferentes para uma eleição competitiva
O cenário construído após as convenções deixa Raquel e João com vantagens claras em terrenos diferentes.
A governadora chega à campanha amparada pela ampla maioria dos prefeitos pernambucanos, pela estrutura do Governo do Estado e por um arco político que vai além das quatro forças que integram formalmente sua coligação. Também construiu na Alepe, durante o mandato, uma relação com parlamentares que supera as fronteiras do seu atual palanque eleitoral.
João, por sua vez, reuniu uma coligação formalmente mais ampla, terá o maior tempo no rádio e na televisão, conta com ligeira vantagem entre os deputados federais pernambucanos alinhados aos dois campos e tem o apoio direto de Lula como um dos principais ativos políticos da campanha.
Nas pesquisas, Raquel chega à disputa liderando os levantamentos de Quaest e Datafolha após reverter a vantagem que João manteve durante 2025. O socialista passou a apresentar recuperação nas rodadas mais recentes, ainda de forma tímida, e a diferença permanece dentro do limite da margem de erro.
As convenções fecharam as chapas, mas não eliminaram as áreas de disputa dentro delas. Prefeitos continuam sendo cortejados para o Senado, partidos apoiam um candidato ao Governo e outros nomes para a Câmara Alta, e a relação dos deputados com os dois campos nem sempre coincide com a posição formal de suas legendas.
A campanha mostrará, a partir de agora, qual dessas estruturas terá maior capacidade de transformar apoio político em voto.


