Por que essa eleição tem o menor número de candidatos em 20 anos? Especialistas analisam

Com menos opções, eleitores vão ás urnas dia 4 de outubro

Esta eleição tem a 1ª queda no número de candidatos desde 2006, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para se ter ideia, 2022 registrou 29.262 candidaturas, enquanto 2026 conta com 20.674, um déficit de 29,3%. Especialistas analisam que, ao passo que o número de pretendentes aos cargos cai, os partidos são enxugados e a federalização se torna regra.

Uma outra perspectiva para diminuição é a cota de gênero. Desde 2009, a Minirreforma Eleitoral consolidou que os partidos devem registrar o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas para cada gênero. Para os partidos que não cumprirem a lei, o TSE aplica punições que foram endurecidas em 2024. A cientista política Priscila Lapa analisa.

“Os partidos que já têm quadros femininos mais orgânicos, como os partidos mais à esquerda, alegam ter uma certa tranquilidade nesse recrutamento, mas mesmo assim, quando não cumprem, alegam a dificuldade de encontrar mulheres que estejam com vontade, que estejam disponíveis para participar da disputa”, pondera.

Ela enxerga o fenômeno da federalização e o fim das coligações para eleições proporcionais como a centelha dessa derrocada de candidaturas. O cientista político Rudá Ricci concorda.

“Porque quando você constitui a federação, você constrói a lista de candidatos. O que os jovens e as mulheres vêm falando para mim há um tempão? Que a federação diminuiu a chance de jovens e mulheres serem candidatos e ter sucesso, porque sempre o topo dos nomes mais importantes de cada federação são homens mais velhos”, explica.

Cláusula de desempenho

Outra leitura pode partir da chamada cláusula de desempenho, que existe desde 2020 e a cada ano fica mais rígida. Em 2026, para ter acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda na TV ou rádio, o partido político precisa atingir uma “meta mínima” de votos válidos nas eleições para deputado federal.

Neste ano, é preciso alcançar, ao menos, 2,5% dos votos válidos, distribuídos em pelo menos nove estados, com um mínimo de 1,5% dos votos válidos em cada um, ou eleger 13 deputados federais em nove estados. Ricci analisa que a cláusula força a federalização e as fusões.

“Eu acho que a tendência mesmo é diminuir o número de partidos no Brasil, porque as campanhas estão cada vez mais caras. A federação é uma tábua de salvação para partidos pequenos, mas de fato a porteira fica mais fechada para candidatos que não têm muita expressão”, projeta.

Lapa enxerga que esses fatores forçam os partidos a reorganizar suas estruturas, tornando a diminuição de candidaturas um efeito colateral.

“Quando você fragmenta o número de partidos no legislativo, você fragmenta a colocação das agendas. Os partidos precisam revisitar suas estratégias para que, em vez de serem mais competitivos, eles saírem reduzidos do pleito. Então, às vezes é melhor recuar, não arriscar, do que não atingir a cláusula, fazendo outras estratégias para se manter relevante”, examina.

Números

A análise dos especialistas é endossada pelos dados. Em 2022, o Brasil tinha 32 partidos, sendo sete deles organizados em três federações: PT-PCdoB-PV, PSol-Rede e PSDB-Cidadania. Em 2026, o número caiu para 30 siglas, com 11 partidos reunidos em cinco federações: União-PP, PT-PCdoB-PV, PSol-Rede, PSDB-Cidadania e Solidariedade-PRD.

Dos 30 partidos registrados no TSE, três não lançaram nenhuma candidatura no estado de Pernambuco: AGIR, PCB e PRTB. O PSTU, apesar de não ter lançado candidatos para deputado federal, anotou duas candidaturas para deputado estadual. Todas as federações lançaram candidatura no estado; apenas a PSDB-Cidadania não registrou concorrentes para vaga de deputado estadual.

Presidenciáveis

Em relação a 2022, houve queda no número de candidatos a deputados federais (-28,15%), estaduais (-33,65%), governo (-12,5%) e até mesmo do Senado, que neste ano estreia a nova modalidade com duas vagas por estado. Em 2018, por exemplo, foram 357; este ano são 315. O que não mudou foi o número de presidenciáveis. São 13 nomes em 2022 e no pleito deste ano. Ricci tem curta resposta: “dinheiro”.

Segundo Rudá, existe histórico de candidatos à presidência que, mesmo com inexpressivos nas campanhas e votações, se utilizavam da candidatura para abocanhar o fundo eleitoral, financiando candidaturas. “Ele então arrecada dinheiro para bancar 150 candidaturas e se eleger 50, são 50 deputados ligados a ele”, exemplifica.

Tradicionalismo

A possibilidade da população estar cada vez menos interessada pela política, gerando essa derrocada, não é descartada por Lapa. Ela afirma que a sociedade vive um processo reiterado de cansaço do processo político. Rudá já enxerga um retorno ao tradicionalismo, deixando para trás um padrão que marcou eleições passadas. A renovação através do passado.

“É que na onda de 2015 começou a surgir um monte de candidato histriônico, que dizia: ‘Eu nunca fui nada na vida. Vote na antipolítica’ E isso acabou. Nós não temos mais candidato militar na profusão que a gente tinha, nós não temos mais esses malucos (sic) que eram de rede social. E o candidato tradicional é centrão. O que eu tô querendo dizer é que a gente voltou à onda da tradição”, simplifica.

Por Emerson Saboia

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